Resenha do livro - Dor Fantasma, de Rafael Gallo
- Carla Gullo
- há 3 dias
- 4 min de leitura
Até que ponto chegamos para alcançar a perfeição? No romance Dor Fantasma, Rafael Gallo nos provoca a estar próximos (até demais) de Rômulo Castelo, que não aceita ser “um pianista”, mas o grande pianista de todos os tempos, melhor intérprete de Liszt. Nós acompanhamos o que se passa internamente durante rotina da almejada conquista de ser reconhecido internacionalmente e aos acontecimentos definitivos que marcam sua carreira. Nesta aventura, Gallo nos aproxima do pianista por meio de uma escrita que se confunde com o fluxo do pensamento e emoções do personagem, o que já nos indica que um desafio muito maior que os palcos se colocaria diante de Rômulo, e um desafio para nós, leitores, de lidar com o sentimentos diante de alguém que quer ser, mas que na verdade precisa encarar as circunstâncias do que pode ser. Um pianista tão inacreditável e ao mesmo tempo tão real.
A leitura nos provoca muitos sentimentos, para mim, uma angústia a cada vez que conhecemos mais Rômulo. Ele também é professor de piano, assim como eu. Em uma das aulas a seus alunos, parece que eu já a tinha vivenciado. Não é raro professores de piano dizerem que as obras dos compositores são como obras de arte em mármore e que precisamos lapidá-los como se estivéssemos esculpindo-as. Que não podemos tocar o que não está sendo dito, mas exatamente aquilo que o compositor escreveu. Não raro, citam a mesma escultura famosa que Rômulo diz a um de seus alunos, a Pietá. Não raro também, dizem que quando intensificamos e levamos a sério nossa prática, deixamos de fazer sons e passamos a fazer música. Isto só se obtém com muita dedicação e quem não faz isto não respeita nem tem cuidado pelo legado do compositor.

Este grande objetivo a ser alcançado: fazer música. Mas eu sempre me perguntei: em relação a quê? Eu adorava os problemas de física e química no ensino médio porque a solução sempre precisava de um referencial para resolver problemas. Mas um som forte é forte em relação ao quê? O som de pianíssimo nunca era suficiente. Eu imitaria o som do professor? Dos grandes pianistas? Quando o piano mudava, mudava toda a sonoridade da música. E agora? Fazer música me parecia inalcançável, não conseguia parâmetros seguros nunca. Não importa o quanto eu estudasse.
Rômulo Castelo tem como grande referencial Liszt e o pai regente. O objetivo é ser tão preciso e sonoramente igual ao pai e tão grandioso quanto o próprio Liszt, o grande performer, o primeiro pop star ocidental do mundo da música e do mundo do piano. E quem nunca que estudou um tiquinho a mais de piano não esbarrou com esta ideia ou almejou ser grande como Liszt? Estudar e apresentar os Estudos Transcendentais ou a Campanella como o ápice da habilidade pianística, por exemplo. Para o pianista do romance esse repertório era pouco, precisava ser a obra intocável Roundeau Fantastique. Obras que precisam de não só dedicação, mas um exaustivo tempo dedicado à elas. A ideia de dom cai por terra de tão sacrificante que é o estudo das obras virtuosísticas de Liszt. O talento não basta, tem que estudar e ficar muito tempo se dedicando, mesmo que você seja o gênio da música.
A perfeição ronda a música e o ensino da música como um fantasma. É algo que nem precisa ser dito, já é pressuposto. O aluno erra uma nota, pede desculpa. Ou então me fala: “você já deve estar enjoada de me ouvir repetir, não é mesmo?”. Ou então me perguntam como se eu tivesse que ser a grande virtuose do piano: “mas você nunca tocou o 3. movimento da Sonata ao Luar?”, “você tem algum concerto marcado ou você só dá aula mesmo?" “Você só toca piano?”
Em meio ao impacto como leitora até onde a perfeição do pianista pode levar, fico pensando até que ponto chegamos quando não conseguimos "fazer música” e até que ponto esta ideia interfere nas nossas relações interpessoais. A ideia de perfeição nos faz com que não tenhamos mais a capacidade de desfrutar os sons, não possamos errar. E para criar, precisamos experimentar sonoridades, lidar com o erro. Ao mesmo tempo, ao interagir com o outro, a perfeição que habita em nós nunca vai ser alcançada por ele, o que impede de enxergar e escutar o que o outro é e sente. A experiência de viver se torna vazia porque não se alcança nunca os padrões esperados.
A leitura da Dor Fantasma me faz pensar quanto sofrimento e quantas peças de piano não foram finalizadas porque houve um trecho que não saía, não estava bom ou quantas não foram começadas porque não se chegou no nível esperado para o repertório. Um erro, um movimento que não se resolve. Um polegar pesado demais que parou uma vida de estudo. Quanto de vida e criação abrimos mão, quantos pianos foram fechados e não se abriram mais porque nunca estava perfeito. Quando que nós, pianistas ou qualquer ser humano que se dedique a qualquer arte ou ofício, abriremos mão de compreender que não somos perfeitos? Apenas somos. Esta utopia consome gerações de alunos e professores. Recomendo a leitura!
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